quinta-feira

a fase do pós-morte $:

chegou o último dia, o dia em que ia ser obrigado a despedir-me. a brisa quente de um dos dias mais húmidos do ano passava por mim como se fosse o último suspiro que sentia. olhei o mar pela última vez, o som do bater das ondas lembrava-me o meu último aniversário em família. quando tudo e todos pareciam fazer um barulho ensurdecedor e ao mesmo tempo um barulho que se tornava acolhedor. as saudades de tudo traziam algumas inevitáveis lágrimas. é dificil, dificil despedir-mo-nos de quem mais amámos, mas o fim parecia estar cada vez mais perto. o pôr do sol estava a chegar e com ele chegava mais depressa a hora da minha partida. 


cá fora, o mundo parecia morto, sem ninguém por perto, sem um único barulho. parecia que a rua que tinha normalmente por hábito estar cheia, estava morta. passei pela esquina onde parava normalmente para tomar café. estava plenamente vazio, fechado. o quão bem eu me lembrava do barulho que ouvia perto daquele café. era no final da esquina o local onde tinha deixado o meu verdadeiro corpo. agora, agora não passava de uma simples alma. andando e divagando pelo mundo sombrio onde estava inserido as manchas do meu sangue ainda estavam lá. verdadeiramente, para mim o meu corpo ainda estava lá. a arma com que decidira pôr fim á minha vida estava caída no esgoto. chegou a noite e com ela chega o descanso da minha alma. e assim, mais um dia passou. um dia após a minha morte. morte do meu corpo porque agora a minha alma vagueia... 

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